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O Livro de Gênesis

A Queda do Homem - III

Décima segunda videoconferência de uma série

sobre o sentido espiritual do livro de Gênesis

Nesta série de conferências temos estudado a história da Criação no livro de Gênesis à luz da explicação de seu sentido espiritual, conforme nos foi exposto na obra “Arcanos Celestes”, de Emanuel Swedenborg.

Vimos aqui, muito superficialmente, o simbolismo que está contido nos relatos bíblicos, simbolismo esse a que chamamos de correspondências, nas quais cada ser, cada objeto ou cada evento mencionado no sentido literal significa algum elemento na dimensão espiritual.

Foi assim que soubemos que o relato da criação do universo significa, no sentido espiritual, a criação do homem espiritual, ou sua regeneração pelo Senhor.

Vimos que a história do homem criado, Adão, e posto para cultivar um jardim em Éden, significa espiritualmente a descrição de como era a natureza e a vida da humanidade nos tempos antiquíssimos neste planeta, sua sabedoria e sua evolução, desde o nível corporal em que nasciam até o nível celeste a que chegavam ainda no mundo natural, e então entravam no mundo espiritual.

Esse era o tempo que os filósofos antigos chamaram de Idade de Ouro do ser humano; sua sabedoria é representada no Gênesis pelos rios e pelas pedras preciosas do jardim; suas afeições e pensamentos são os animais a que o homem deu nomes e os répteis e as aves.

Depois de algum tempo, não sabemos se milhares ou milhões de anos, aquelas pessoas começaram a se desviar do seu estado original; eles quiseram ter a sensação de que tinham uma vida propriamente sua, à parte da vida que fluía do Divino. E Deus atendeu esse desejo, fazendo que eles tivessem a sensação de que a vida estivesse neles. Isto foi representado pela mulher, que então representa o proprium ou o ego humano. É esse proprium que dá a sensação de que a vida é inerente ao ser humano. A partir daí, Adão passa a representar, no Gênesis, o lado intelectual ou racional e a mulher representa o lado voluntário ou emocional da mente.

Esta é, então, a segunda fase da vida dos antiquíssimos ou, da Igreja Antiquíssima, porque a história da criação e da humanidade é contada na Bíblia do ponto de vista religioso e não do ponto de vista histórico, antropológico ou geológico.

Numa terceira fase, aquela sensação de vida própria, representada pela mulher, se deixa levar cada vez pelas impressões dos sentidos físicos, e pelos raciocínios formulados a partir dos sentidos, que são representados pela serpente. O desejo que o ser humano teve de se instruir e ser sábio por si mesmo, pelos sentidos do corpo e não pela revelação Divina, foi representado pela sedução da serpente e pelo ato consecutivo de se comer da árvore do conhecimento do bem e do mal.

O modo de instrução por meio dos sentidos acaba prevalecendo, pois isto agrada o ego humano; o racional dá seu consentimento e, como consequência disso, a humanidade perde a sabedoria celeste; sua vida consciente passa a rastejar no plano material da vida, que é o plano dos sentidos corporais; por isso vivemos pelos sentidos, nos sentidos e para satisfazer os sentidos, o que é relativamente a morte espiritual.

A humanidade nesta Terra se encontra atualmente nesse estado, porque quer nutrir e desenvolver sua mente apenas pela instrução do intelecto a partir dos sentidos corporais. Toda a ciência humana está fundamentada nos objetos e fenômenos que podem ser observados, medidos, contados, numerados e assim por diante. “Científico”, para nós, é sinônimo do que está em conformidade com os sentidos. O homem pensa que, pela ciência, tem os olhos abertos, segundo a falsa promessa da serpente, e acha que sua sabedoria pode prescindir da revelação do Criador.

Umas poucas pessoas, pelo fato de buscarem a verdade em sua religião, ainda têm um resíduo de percepção, que é consciência, e as verdades de sua fé fazem com que elas percebam a realidade espiritual, e essa realidade é que nós, humanos, diante do Criador, estamos de fato nus, isto é, por nós mesmos estamos desprovidos de sabedoria e, por conseguinte, da verdadeira vida. Quando nos tornamos cientes de nossa condição, de nudez, de cegueira, procuramos cultivar a bondade natural, num esforço de aliviar nossa consciência e nos ocultar do juízo Divino. E é nesse ponto que a voz misericordiosa de Deus nos encontra e nos pergunta onde estamos e o que temos feito de nossas vidas.

Deus dirige Sua palavra primeiramente ao nível dos sentidos da mente humana. Ele diz que a serpente se arrastaria sobre o ventre e comeria pó, significando que os sentidos humanos estariam presos às ilusões materiais e se alimentaria do pó do conhecimento, das trivialidades que são as instruções do mundo, o pó, comparadas à verdade espiritual, que é a Rocha. Mas ele diz, também, que as ilusões dos sentidos não triunfariam para sempre sobre vida humana, pois Ele viria ao mundo e assumiria um Humano natural pela concepção virgem de uma mulher, Ele, a Semente de mulher, a Verdade que se fez carne, subjugaria as falsidades dos sentidos, o que é representado por esmagar a cabeça da serpente.

“E à mulher disse: Multiplicarei grandemente tua dor e tua concepção; com dor parirás filhos, e para teu varão [será] tua obediência, e este te dominará”.

No sentido literal, essas palavras parecem ser de condenação ou maldição. Mas as aparentes maldições feitas à serpente, à mulher e ao homem, são, de fato, somente previsões do que a vida lhes traria, como resultante de suas próprias ações. É dito que o Senhor multiplica a dor do ser humano porque assim é a aparência que temos: atribuímos à ação Divina toda contingência acima de nosso controle. Mas já vimos que isto é uma aparência, e que essa aparência serve, no início, para que a pessoa creia que Deus governa todas as coisas, antes que ela aprenda que o bem vem de Deus, mas o mal vem da natureza humana caída.

 “Pela “mulher”, agora, é significada a Igreja, por causa do proprium que ela amou; por “multiplicando multiplicarei a dor” é significada a luta e, pela luta, a ansiedade; pela “concepção” é significado todo o pensamento; pelos “filhos que pariria com dor” são significados os veros que, assim, produziria; pelo “varão”, aqui como anteriormente, é significado o racional ao qual ela deve obedecer e que dominará.” (261)

“Por essas palavras não se entende que as mulheres devem parir os filhos em dor, mas pela ‘mulher’ se entende a igreja, que, de celeste, tornou-se natural; isto significa ‘comer da árvore da ciência’. Que o homem da igreja dificilmente possa ser regenerado pelos veros e pela vida segundo os veros, e que deve sofrer tentações para que os veros sejam implantados e conjuntos ao bem é significado por ‘ser multiplicada a dor e a concepção’ e por ‘em dor parirá filhos’; a ‘concepção’ significa a recepção do vero que procede do bem, e ‘parir filhos’ significa produzir os veros pelo casamento do vero e do bem.

“Uma vez que o homem natural tem concupiscências pelo amor de si e do mundo, e essas não podem ser removidas senão pelos veros, por isso se diz que ‘para o varão será sua obediência e ele a dominará’; pelo ‘varão’ é significado, aqui como em outras passagens na Palavra, o vero da igreja. Que o homem seja reformado e regenerado pelo vero e pela vida segundo os veros é o que se mostrou acima. Por essas explicações pode-se ver agora que por ‘concepção’, ‘parto’, ‘nascimentos’ e ‘gerações’ na Palavra são significados a concepção, o parto, os nascimentos e as gerações espirituais.

Quando os sentidos corporais governam, a pessoa fica exposta aos ataques dos maus espíritos, e são eles que lhe inspiram dúvida, descrença, desânimo, inércia, letargia e, mais ainda, resistência a toda instrução nas verdades espirituais, e rejeição a toda mudança que a instrução lhe sugere. A resistência por parte dos maus espíritos é que faz ser tão difícil abandonarmos um mal hábito, um vício ou um pecado. Essa dificuldade que temos de deixar de fazer o que é mal e gerar em nós algo de bom é essa dor e a luta que nosso voluntário tem, como se fosse o parto da mulher: “multiplicarei grandemente a dor quanto à concepção e quanto ao parto dos filhos”. É dor do processo pelo qual a verdade passa para se tornar bem na ação. (263)

Que o “varão” dominará significa que nosso racional deverá ter o controle do voluntário, e nosso voluntário deve estar sujeito ao racional. Porque, como já vimos aqui, é pelo racional que nós, seres humanos masculinos e femininos, podemos ser elevados acima de nosso proprium, a fim de dirigir o voluntário, pois este é, em si, cego, mudo e irracional. Nosso voluntário é somente um acúmulo de desejos e emoções, cobiças e sentimentos, e, no que diz respeito ao voluntário o ser humano não se distingue dos animais irracionais.

“E ao homem disse: Porquanto ouviste a voz de tua esposa, e comeste da árvore da qual te mandei dizendo: Não comerás dela, maldito será o humo por causa de ti. Em grande dor comerás dele todos os dias de tua vida”.

O homem externo é chamado “humo” porque é nele que são implantadas as sementes do bem e da verdade. Quando o homem se desviou da vida da ordem, ele se separou do seu interno, e assim se amaldiçoou, pois a vida material em si mesmo é morta e maldita, se for separada da espiritual. Se a dor da mulher representou a dificuldade para fazer o bem, a dor do homem, aqui, é a dificuldade para entender a verdade.

A “grande dor” com que comeria do humo significa, agora, a dor do racional para obter a vida espiritual, porque os maus espíritos que então se acham presentes com o homem se opõem a qualquer esforço que ele fizer para melhorar sua vida. “Os maus espíritos então governam o seu homem externo e os anjos o interno, do qual resta tão pouco que os anjos mal podem dali tomar alguma coisa com que defendê-lo; daí a miséria e a ansiedade.”

Esse sofrimento mental resulta de um combate espiritual entre o céu e o inferno, os anjos e os maus espíritos. Os maus espíritos atacam e os anjos defendem. A batalha se passa na mente do homem; é sobre quem dominará ali, os males que procedem do inferno ou os bens que vêm de Deus pelos céus. O homem sente esse combate como ansiedades e dores de consciência, porque ele crê que os males vêm dele, são a sua vida, a qual ele corre o risco de perder.

Por aí se vê que nem todos sentem esse tipo de sofrimento. Nem todos comem do humo com grande dor. Porque só sofrem os combates de tentação aqueles que têm adquirido alguma consciência e estão sendo regenerados pelo Senhor.

Por exemplo: a pessoa pratica um mal ou se lembra de um mal que praticou no passado e sente vergonha ou remorso por ter feito aquilo. Não vergonha por ter sido por acaso descoberta ou apanhada em flagrante, mas porque hoje crê que aquele mal foi um pecado contra Deus. Então, se, ao lembrar, ela sente pesar, remorso ou vergonha, e tem desejo sincero de não repetir aquele feito, por ser um pecado contra Deus, isto é um bom sinal, embora a pessoa sofra em sua consciência, porque é somente a consciência formada pelas verdades que faz com que a pessoa sinta tristeza pelos pecados. Essa é tristeza diante de Deus que o apóstolo Paulo fala em 2 Coo. 7:10. Esse sofrimento é, no fim, benéfico. Portanto, comer do humo com grande dor é, portanto, uma bênção, porque, apesar da dor de consciência, a transformação advinda da penitência alimenta o espírito.

Os que não estão sendo regenerados, e que não têm essa dor, são descritos nos Arcanos:

“Os homens mortos raramente sentem tal miséria e ansiedade, porque não são mais homens, ainda que se achem homens mais do que os outros. Pois eles não sabem mais do que os brutos o que é o espiritual e celeste e o que é a vida eterna; semelhantemente, olham para baixo, para as coisas terrestres, ou então para trás, para as mundanas. Somente favorecem o proprium e entregam-se às inclinações naturais [gênio] e aos sentidos, com inteiro consentimento do racional. E, como são mortos, não sustentariam luta alguma ou tentação. Se lhes acontecesse alguma tentação, seria tão mais grave que não poderiam sobreviver, e, assim, se amaldiçoariam ainda mais e se precipitariam em condenação infernal ainda mais profunda. Por isso são poupados até que tenham passado à outra vida, onde não podem mais morrer por tentação ou por miséria alguma. Então, sustentam gravíssimas tentações que são semelhantemente significadas por estas palavras: “maldito o humo; em grande dor comerás dele”.

“E espinho e cardo produzirá para ti, e comerás a erva do campo”. O “espinho e cardo” também representa o estado de maldição e a devastação e “comer erva do campo” é a condição do homem natural quando entregue aos prazeres do corpo e dos sentidos e está separado do espiritual. Ele é fera porque em seu voluntário há as mesmas cobiças e apetites que têm os animais. A única diferença é que ele tem um racional pelo qual pode ser elevado acima dos sentidos e do proprium. Mas, enquanto seu homem interno n]ao receber a vida que flui do Senhor pelas verdades e bens, essa vida corporal do homem se chama morte, e o homem é chamado “morto”, na Palavra.

 “No suor de teu rosto comerás pão, até que voltes para o humo, porque dele foste tomado. Porque tu és pó, e ao pó voltarás.” “Comer pão no suor do rosto” significa ser adverso ao que é celeste; “voltar ao humo de que foi tomado” é voltar ao homem externo tal qual era antes da regeneração; “que és pó e ao pó voltarás” é ser condenado e infernal. (275)

Que “comer pão no suor do rosto” signifique ser adverso ao que é celeste, pode-se ver pela significação de “pão”. Pelo “pão” se entende todo espiritual e celeste, que é a comida angélica; se os anjos fossem privados dela, não viveriam, assim como o homem se fosse privado do pão ou da comida. O celeste e espiritual no céu também correspondem ao pão nas terras e também são representados pelo pão, como se vê em muitas passagens. (276)

“Comer pão do suor do rosto”, que no sentido da letra parece maldição Divina, é interpretado por alguns como o trabalho, que, no caso, é visto como maldição. Mas é evidente que o trabalho só é tido como maldição para quem presta trabalho escravo, ou para quem não gosta do que faz ou para quem não é afeito ao trabalho. Porque, se nós amamos aquilo que fazemos, o trabalho não é pesado, mas feito com prazer, com satisfação. E o trabalho honesto que prestamos deve ser visto como uma oportunidade que Deus nos dá de sermos úteis, portanto, uma bênção.

 

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Atualização: Dezembro, 2022 - doutrinascelestes@gmail.com -