71. Carta de Tiago
71.1- Tiago é a forma portuguesa do hebraico Iacob
(que deu em francês Jaques e em inglês James). Não se sabe qual dos dois
discípulos do Senhor que tinham este nome foi o autor da carta, se Tiago
"Menor" ou Tiago "Maior". Se foi Tiago Maior ou mais
velho, esta carta deve ter sido escrita entre os anos 45 e 58, o que se
presume por causa dos assuntos nela tratados, surgidos antes de controvérsias
que houve em Jerusalém naquelas épocas. No máximo, teria sido escrita no
ano 61, pois esse Tiago Maior foi martirizado em Jerusalém no ano 62. Se o
autor é o outro, Tiago Menor, pode ter sido escrita bem depois daquela
época, já que esse outro Tiago foi presidente da Igreja de Jerusalém.
71.2- A Carta de Tiago é a que mais dúvidas tem
suscitado dentre os livros do Novo Testamento, a saber, quanto ao seu autor e
à época em que foi escrita. Vários comentaristas bíblicos e antigos
pesquisadores têm escrito muitas páginas a respeito dessas questões, mas
sem terem chegado a uma conclusão definitiva. Alguns têm mesmo duvidado da
autenticidade e da inspiração deste livro; entre estes, destaca-se Martinho
Lutero, talvez pelo fato de a Carta de Tiago enfatizar a importância das
obras (em aparente detrimento da fé), já que Lutero se confirmara
profundamente na importância da fé (em claro detrimento das obras) a fim de
combater alguns abusos então praticados por líderes da Igreja Católica.
Lutero fez objeções a esta epístola pelo fato de ter achado nela uma
contradição com o que está em Romanos 4:9, que diz que Abrahão foi
justificado por sua fé, ao passo que Tiago 2:21 diz que Abrahão foi
justificado pelas obras. No entanto, diz o comentarista Buckland, que, se bem
compreendidas estas passagens, não há contradição alguma, mas, sim, grande
harmonia. De fato, o que justifica o homem diante de Deus é a conjunção
entre a fé e as obras de sua vida. A fé é a semente que, caindo na boa
terra de um coração disposto e sincero, pode, através da obediência,
produzir os frutos das obras cristãs. A conjunção de fé e obras é que
gera a salvação e não um ou outro isoladamente. Assim, poderíamos dizer
que Romanos exalta um aspecto da vida cristã, a fé verdadeira, enquanto
Tiago exalta o outro aspecto, as obras, a prática daquilo que a fé ensina.
Um complementa o outro e ambos os livros dão uma completa e única direção
de vida cristã.
71.3- Apesar das dúvidas quanto à sua autoria, esta
carta foi recebida como canônica desde os primeiros tempos do cristianismo.
Pouco antes do século II, ainda quando os livros de Pedro, Judas e o
Apocalipse não tinham sido aceitos plenamente em todas as igrejas, a carta de
Tiago já era aceita sem hesitação e já tinha sido incluída na primeira
tradução siríaca para os judeus recém convertidos. Este é um dado
importante, porque os judeus, a quem a epístola foi dirigida, certamente
deviam ter conhecido seu autor e o estimado digno de confiança; eles eram,
portanto, melhores juízes do que os estudiosos que vieram muitos séculos
mais tarde. A ignorância de alguns não pode ser, de forma alguma, prova
contra a autenticidade da carta.
71.4- Também a epístola de Tiago é chamada
universal ou católica, pois não foi escrita para uma igreja ou cidade
apenas, mas para toda a cristandade em toda parte. Parece, no entanto, que foi
dirigida especialmente aos judeus que se converteram no dia de Pentecostes e
retornaram aos países onde residiam.
71.5- A carta de Tiago é bem diferente das demais
cartas apostólicas; o estilo a aproxima mais de um profeta judeu do que de um
apóstolo cristão. Menciona Jesus Cristo apenas duas vezes; pouco fala de
Seus milagres e obras. Em suma, pode ser considerada uma espécie de escrito
intermediário entre a crença cristã e a judaica. Seria, no dizer do
crítico Adam Clarke, um elo entre o cristianismo e o judaísmo, tal qual foi
o papel de João Batista, entre a Velha e a Nova Aliança, ajuntando as duas
em uma. A carta abre-se sem saudação apostólica e encerra-se sem a
bênção costumeira. Seu assunto principal é o caráter de vida do
verdadeiro cristão, que deve ser praticante da Palavra, perseverando na lei
perfeita da liberdade, em contraste com o espírito e a conduta daqueles que
professam o cristianismo apenas de boca.
71.6- A Carta de Tiago tem 5 capítulos e 108
versículos.
71.7- Assuntos da Carta de Tiago
1- Tiago dirige-se às doze tribos de Israel. Devem
receber de bom grado as provas da fé pois elas aperfeiçoam a paciência.
São exortados a pedir sabedoria a Deus. As tentações não vêm de Deus, mas
das próprias cobiças. Todo bem procede de Deus. Advertência contra as más
ações e palavras. Devem ser praticantes e não apenas ouvintes da Palavra.
Qual é a verdadeira religião aos olhos de Deus: a prática do bem. Cap.1.
2- Não devem discriminar as pessoas por causa de sua
riqueza ou indigência, pois isto é contrário ao Evangelho. Todos são
herdeiros do reino de Deus. Devem amar o próximo. Quem peca contra um
Mandamento, peca contra todos. O julgamento com que serão julgados depende da
misericórdia que exercerem. A fé sem as obras é morta; a fé não existe
onde não houver obras. Abrahão provou sua fé por meio das obras. A fé é
como o alma e as obras são como o corpo da fé. Cap.2.
3- Exortação a que evitem a ofensa e controlem a
língua, que muitas vezes é instrumento do mal. O caráter e os frutos da
verdadeira e da falsa sabedoras. Cap.3.
4- A origem das guerras está nas cobiças. Dos males
que estão no homem e da necessidade de o homem se arrepender deles. A
impiedade daqueles que fazem planos sem pensar nos desígnios Divinos e sem
depender da Divina Providência. O pecado daquele que conhece a vontade de
Deus e não a cumpre. Cap.4.
5- A triste sorte dos que se apegam às suas
riquezas. Exortação a que sejam pacientes até à vinda do Senhor e não
tenham inimizade; os profetas e Jó devem servir como exemplos de coragem para
os cristãos. O juramento é proibido. Conforto aos que estão enfermos. A
confissão mútua de faltas. O valor de se ajudar a alguém a se converter do
mal. Cap.5.
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